*Continuação...
Cara, como eu estava errado.
Entenda: coisas ruins me acontecem em excursões escolares. Como na minha escola da quinta série, quando fomos para o campo da batalha de Saratoga, e eu tive aquele acidente com um caminhão da Revolução Americana. Eu não estava apontando para o ônibus da escola, mas é claro que fui expulso do mesmo jeito.
E antes disso, na escola da quarta série, quando fizemos um passeio pelos bastidores do tanque dos tubarões do Mundo Marinho, e eu, de alguma forma, acionei a alavanca errada no passadiço e nossa turma tomou um banho inesperado. E antes disso... Bem, já dá pra você ter uma ideia.
Nessa viagem, eu estava determinado a ser bonzinho.
Ao longo de todo o caminho para a cidade aguentei Nancy Bobofit, aquela cleptomaníaca ruiva e sardenta, acertando a nuca do meu melhor amigo, Grover, com pedaços de sanduíche e de manteiga de amendoim com ketchup.
Grover era um alvo fácil. Ele era magrelo. Chorava quando ficava frustrado. Devia ter repetido o ano muitas vezes, porque era o único no sétimo ano que tinha espinhas e uma barba rala começando a nascer no queixo. E, ainda por cima, era aleijado. Tinha um atestado que o dispensava da aula de Educação Física pelo resto da vida, porque tinha algum tipo de doença muscular nas pernas. Andava de um jeito engraçado, como se cada passo doesse, mas não se deixe enganar por isso. Você precisava vê-lo correr quando era dia de enchilada na cantina.
De qualquer modo, Nancy Bobofit estava jogando bolinhas de sanduíche que grudavam no cabelo castanho cacheado dele, e ela sabia que eu não podia revidar, porque já estava sendo observado, sob o risco de ser expulso. O diretor de ameaçara de morte com uma suspensão "na escola" (ou seja, sem poder assistir às aulas, mas tendo que comparecer à escola e ficar trancado numa sala fazendo tarefas de casa) caso alguma coisa ruim, embaraçosa ou até moderadamente divertida acontecesse durante a excursão.
- Eu vou matá-la - murmurei.
Grover tentou me acalmar.
- Está tudo bem. Gosto de manteiga de amendoim.
Ele se esquivou de outro pedaço do lanche de Nancy.
- Agora chega. - Comecei a levantar, mas Grover me puxou de volta para o assento.
- Você já está sendo observado - ele me lembrou. - Sabe que será culpado se acontecer alguma coisa.
Quando me lembro daquilo, preferiria ter acertado Nancy Bobofit no ato. A suspensão na escola não seria nada em comparação com a encrenca que eu estava prestes a me meter.
O sr. Brunner guiou o passeio pelo museu.
Ele foi na frente em sua cadeira de rodas, conduzindo-nos pelas grandes galerias cheias de ecos, passando por estátuas de mármore e caixas de vidro repletas de cerâmica muito velha preta e laranja.
Eu ficava alucinado só de pensar que aquelas coisas tinham sobrevivido por dois mil, três mil anos.
Ele nos reuniu em volta de uma coluna de pedra com quatro metros de altura e uma grande esfinge no topo, e começou a explicar que aquilo era um marco tumular, um estela, feita para uma menina mais ou menos da nossa idade. Contou-nos sobre as inscrições laterais. Estava tentando ouvir o que ele tinha a dizer, porque era um pouco interessante, mas todos ao meu redor estavam falando, e cada vez que eu dizia para calarem a boca, a outra professora que nos acompanhava, a sra. Dodds, me olhava de cara feia.
A sra. Dodds era aquela professorinha de matemática da Geórgia que sempre usava um casaco de couro preto, apesar de ter cinquenta anos de idade. Parecia má o bastante para entrar com uma moto Harley bem dentro do seu armário. Tinha chegado em Yancy no meio do ano, quando a nossa última professora de matemática teve um colapso nervoso.
Desde o primeiro dia, a sra. Dodds adorou Nancy Bobofit e concluiu que eu tinha sido gerado pelo diabo. Ela me apontava o dedo torto e dizia: "Agora, meu bem", com a maior doçura, e eu sabia que ia ficar detido depois da aula por um mês.
Certa vez, depois que ela me fez apagar as respostas em antigos livros de exercícios de matemática até meia-noite, disse a Grover que achava que a sra Dodds não era gente. Ele olhou para mim, muito sério, e disse:
- Você está certíssimo.
O sr. Brunner continuou falando sobre arte funerária grega.
*Continua...
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